Deputado denuncia interferência política do STF no Maranhão e cobra Congresso e imprensa

Ele diz que é inconcebível que Flávio Dino, ministro do STF, “possa julgar um desafeto, um adversário político”. O deputado federal Aluísio Mendes (Republicanos-MA) usou a tribuna da Câmara para denunciar o que classificou como interferência ilegal do Supremo Tribunal Federal na política do Maranhão. No pronunciamento, ele associou decisões dos ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes à crise política e jurídica no Estado e pediu que o Congresso e a imprensa nacional acompanhem o caso. Segundo Mendes, o Maranhão vive uma “interferência absurda e ilegal no processo eleitoral”. Para ele, se os mesmos fatos ocorressem em Minas Gerais, São Paulo ou Rio de Janeiro, o episódio já seria tratado como um dos maiores escândalos do país.

Ruptura com Brandão e atuação de Dino

Um dos principais alvos do discurso foi Flávio Dino, ex-governador, ex-senador e hoje ministro do STF. Mendes relacionou a atuação do magistrado à ruptura entre o grupo de Dino e o governador Carlos Brandão. Disse que processos no Supremo passaram a atingir pessoas ligadas à disputa estadual, incluindo ações sobre a escolha de conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA). O parlamentar afirmou que aliados de Dino repetem a tese de que Brandão pode não concluir o mandato, o que, a seu ver, gera instabilidade. Questionou o silêncio de parte das bancadas estadual e federal e atribuiu a omissão ao “medo” e ao “pânico de serem perseguidos”. Mendes disse que o próprio pronunciamento poderia colocá-lo sob risco de investigação, inclusive no inquérito das fake news. Citou ainda o deputado estadual Yglésio Moyses, que já apresentou representação internacional contra Dino.

Caso Tech Office e questionamento de imparcialidade

O deputado também levou à tribuna o homicídio de João Bosco Sobrinho Pereira, ocorrido em 2022 no edifício Tech Office, em São Luís. Gilbson Cutrim Júnior confessou o crime e foi condenado pelo Tribunal do Júri, em 2024, a 13 anos, 1 mês e 15 dias de prisão. Depois de progredir para o regime semiaberto, passou a publicar vídeos com acusações contra Brandão, familiares e aliados, incluindo a presidente da Assembleia Legislativa, Iracema Vale.Mendes criticou a repercussão dada às falas do condenado. “Esse assassino está solto e usando as redes sociais para denegrir e atacar o atual governador e a sua família”, afirmou. Embora reconheça Iracema Vale como adversária política, disse não aceitar que ela seja publicamente associada a homicídio com base nessas declarações. O deputado questionou a tramitação do caso no STF sob relatoria de Dino. Para ele, o rompimento político entre os grupos torna incompatível a atuação do ministro. “É impossível conceber que o ministro do Supremo Tribunal Federal possa ele julgar um desafeto, um adversário político”, declarou. Também criticou o entendimento do ministro Dias Toffoli de que não haveria impedimento de Dino, após recurso apresentado por Brandão.

“Amanhã pode ser qualquer um de nós”

Em um dos trechos mais duros, Mendes ampliou o alerta para além da disputa local: “Hoje é o governador Carlos Brandão. Hoje é a família do governador Carlos Brandão. Hoje são os desafetos do ministro Flávio Dino. Amanhã pode ser Vossa Excelência, pode ser qualquer um de nós.” Ele recorreu ao texto atribuído ao pastor Martin Niemöller sobre o silêncio diante de perseguições sucessivas e pediu reação institucional. “É preciso que a grande imprensa nacional e o Congresso Nacional fiquem atentos, para o que está acontecendo no Maranhão.”

Jornalista investigado após reportagem sobre Dino

Outro ponto do discurso foi a investigação contra um jornalista maranhense que publicou reportagens sobre o suposto uso irregular de veículo oficial por Flávio Dino. Mendes citou matéria do Jornal da Band e afirmou que, meses depois da denúncia, o caso do veículo seguia sem desfecho, enquanto o autor das reportagens passou a ser investigado. O deputado criticou buscas e apreensões de celular e computador, que, segundo ele, colocaram em risco o sigilo de fonte. “Uma matéria jornalística apontando uma possível irregularidade deveria ser discutida no foro adequado.” Disse ainda que relatório da Polícia Federal não teria apontado crime na conduta do jornalista, mas que, mesmo assim, medidas foram determinadas no âmbito do Supremo.

Apelo institucional

Ao encerrar, Mendes pediu atenção da Câmara, do Senado e da imprensa nacional. Para ele, a discussão vai além de Brandão ou de um grupo político: trata-se dos limites da atuação de ministros do STF que tiveram participação direta na política maranhense e hoje julgam processos com efeito sobre antigos aliados, adversários e o cenário eleitoral de 2026.

“São esses fatos que hoje acontecem no Maranhão, que parecem passar ao largo da mídia nacional, passam ao largo do Congresso Nacional e que nós não podemos mais aceitar”, concluiu.

Diário do Poder

 

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *