
*Pedro Luiz Rodrigues
O Partido dos Trabalhadores encontra-se em franco processo de declínio, o que não é mais tema de debate, mas uma constatação. No seio da agremiação parece prevalecer o espírito do provérbio “em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”, na busca de se encontrar o responsável pelo sofrível resultado eleitoral de 4 de outubro. Lula apontou o dedo para o presidente do partido, Edinho Silva. Alguns petistas responsabilizam a sotto voce o próprio Lula pelo fiasco. Ora, convenhamos! Luiz Inácio Lula da Silva pode não mais se encontrar no ápice de seu vigor físico e psicológico, mas mesmo assim seu prestígio e seu atrativo eleitoral continuam vigorosos, em particular no Nordeste, onde os resultados de domingo passado mostram claramente que lá a estrela é Lula, não o PT. Se não fosse por ele, o partido teria minguado ainda mais nos Estados e talvez deixado de ser relevante na estrutura do poder político nacional.
Esse tipo de coisa, de dependência eleitoral em relação a um único líder, ocorreu tempos atrás com o PSDB, e o resultado está aí: transformou-se hoje num partido nanico. Seu exemplo mostra como egos enormes, ambições desmedidas e, principalmente, o distanciamento das bases formam um composto letal para a sobrevivência partidária.
No último domingo, o desempenho do PSDB foi o mesmo de dar pena a quem o conheceu em seus tempos áureos: elegeu um governador, o de Alagoas ( e tem outro em disputa no segundo turno, em Tocantins). Em todo o país conseguiu eleger onze deputados federais e apenas dois senadores Federal. Aécio Neves, tido como um ícone da agremiação (e seu atual presidente), candidato ao Senado, ficou sem sétimo lugar na disputa.
Quando criado, o PT encantou boa parte da sociedade, em particular os mais jovens, com sua plataforma reformista, à qual agregava nomes notáveis: além de Lula, José Dirceu, José Genoíno, Olívio Dutra, Eduardo e Marta Suplicy, Luiz Gushiken, Aloízio Mercadante, Tarso Genro, Rui Falcão, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda e Manoel da Conceição. Além desses, outros intelectuais, escritores e líderes sociais assinaram o manifesto de fundação do partido. Na esfera jurídica, destacavam-se nomes como o de Hélio Bicudo e Aírton Soares. Hoje, quais os luminares que poderíamos destacar: Jaques Wagner? Lindbergh Faria? Glesi Hoffmann? José Guimarães?
Constituídos na década de 1980, no mesmo contexto histórico da redemocratização, o PSDB e o PT contavam de início com dirigentes excepcionais e propunham audaciosos projetos políticos de longo prazo Movido por nobres ideais, o PT logo tornou-se sinônimo de oposição no Brasil. Esse entusiasmo juvenil, como era de se supor, foi mantido na base, mas perdido na cúpula após ua chegada do partido ao poder. Assim como antes havia acontecido com o PSDB, a partir de 2003 o PT deixou de priorizar a formulação política para se transformar em máquina administrativas com predominantes preocupações de poder.
Em 2000, três anos antes de Lula tomar posse como Presidente da República, Tarso Genro já se preocupava sobre o que aconteceria com o PT quando este chegasse ao poder, tendo analisado os processos de institucionalização e pragmatismo com que então se defrontavam os partidos de esquerda. Seu argumento central era a de que os temas inerentes à gestão pública sublimariam os debates ideológicos profundos e as utopias que definiam esses partidos antes de sua chegada ao poder.
Existem outras análises, mais recentes, sobre tema, merecendo destaque o trabalho do cientista político Valeriano Mendes Ferreira da Costa (“O PT e a unidade partidária como problema”), em que aborda dois fenômenos que ocorrem quando o partido de esquerda enfrenta assume o papel de partido governista: o primeiro seria relacionado à dificuldade de autonomia do partido frente ao governo, como a “absorção” da estrutura partidária pelas necessidades e prioridades da gestão pública, e dificuldades que passa o partido a enfrentar para formular críticas, propor caminhos independentes ou se posicionar de forma autônoma, uma vez que tais gestos podem ser interpretados como uma ameaça à governabilidade.
O segundo fenômeno seria o do afastamento entre direção e militância. Há nesse aspecto, o aumento da burocratização interna, resultado da ocupação de cargos públicos (que transferem o poder real de decisão das bases para as bancadas parlamentares e dirigentes profissionais remunerados. De outro lado, a militância de base, que se percebia como a essência mesma da ação partidária, torna-se secundária, passando a atuar como mera força de apoio em campanhas eleitorais ou na defesa do governo pela mídia social.
O ápice do vigor eleitoral do PT – excetuadas, claro, as repetidas vitórias de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República – foi exibido nas eleições municipais de 2012, quando conquistou 651 prefeituras, demonstrando a grande capilaridade que havia sido alcançada pelas mensagens do partido. Mas tudo se desfez nas eleições seguintes: em 2016, o PT elegeu 256 prefeitos. Em 2020 a situação no âmbito dos municípios pioraria ainda mais (183 prefeituras, nenhuma de capital), com leve recuperação em 2024 (252 prefeituras, de capital apenas Fortaleza).
O Nordeste. Gosta de Lula, mas não tanto do PT.
No caso do PT a situação não ainda não se tornou tão dramática quanto a PSDB, mas há sinais evidentes de que o partido não conta com a mesma capacidade de angariar eleitores do que a que possui seu ícone, Lula. Tomemos, para efeitos de análise, o que ocorreu nas eleições de domingo passado no Nordeste, região tida como essencialmente “petista”, mas que na verdade é mais lulista do que petista.
No Nordeste, o prestígio do Presidente da República continua expressivo, e lá, no domingo, Lula recebeu 63,77% dos votos válidos, apenas três pontos percentuais a menos do que em 2022. Mas, o que ocorreu quanto aos candidatos de seu partido?
Na disputa pelos governos estaduais do Nordeste, apenas no Piauí o candidato do PT (com a reeleição de Rafael Fonteles, com 70,8% dos votos) alcançou percentual próximo ao do próprio Lula (71%). O prestígio do Presidente e do governador não foi suficiente para assegurar a eleição de nenhum senador. Apenas dois deputados federais do PT foram eleitos (Zé Santana e Dr. Francisco), ambos com cerca de 6% dos votos.
No Maranhão, onde Lula conseguiu auferir 64% dos votos válidos, o candidato de seu partido ao governo do Estado, Felipe Camarão, obteve o terceiro lugar, com modestos 9,6% dos votos. Na disputa para governador Eduardo Braide saiu vitorioso no primeiro turno, com 54% dos votos, tendo ficado em segundo lugar na disputa Orleans Brandão, do MDB (34,8%). Para o Senado, o PT não elegeu nenhum candidato e para a Câmara, apenas um (Rubens Pereira Jr., o 14o mais votado).
No Ceará, Lula conquistou 63,3% dos votos, dez pontos percentuais acima do que o logrado pelo candidato (vitorioso) à reeleição, Elmano de Freitas (53,2%). Embora o Partido dos Trabalhadores não tenha apresentado candidatos próprios ao Senado, os eleitos foram de agremiações de sua base de apoio. Dos 22 deputados federais eleitos, o PT elegeu três: Fernando Santana (8o mais votado), Raimundo Martins (15o) e Luísa Cela (19a ).
No Rio Grande do Norte, Lula consagrou-se com 59,75% dos votos válidos, mas o candidato do PT ao governo do Estado obteve apenas 36,16% (vai disputar o 2o turno). Uma senadora do PT foi eleita, Samanda de Lula, com 17,63% dos votos. Para a Câmara do Deputados, (8 vagas) uma única candidata do PT foi eleita, Natália Bonavides, que embora tenha sido a mais votada do Estado, recebeu apenas 10,95% dos votos válidos.
Na Paraíba, igualmente, o prestígio de Lula é grande, mas o do PT mostrou-se significativamente menor. Lula recebeu 61,3% dos votos válidos. Para governador, foi reeleito no primeiro turno o candidato do PP (Lucas Ribeiro), com 64,3% dos votos. O PT elegeu um deputado federal (Ricardo Coutinho, com 6,8% dos votos), mas nenhum senador ( seu aliado, o PSB, conquistou uma das duas vagas, com João Azevedo, que recebeu 32,5% dos votos). Embora o PP do governador tenha recebido o apoio de Lula, em âmbito nacional a presunção desse apoio não existe, uma vez que para o segundo turno a federação PP e União Brasil acaba de anunciar seu apoio formal à candidatura do PL.
Em Pernambuco, Lula recebeu 63,4% dos votos válidos, mas o candidato que apoiou para o Senado (João Campos, do PSB) foi derrotado em primeiro turno por Raquel Lira, do PSD. A esquerda obteve as duas vagas para o Senado: Humberto Costa reelegeu-se, com 27,2% dos votos, e a atual deputada federal Marília Arrais (PDT), com 24,97%. Para a Câmara do Deputados, (8 vagas) uma única candidata do PT foi eleita, Natália Bonavides, que embora tenha sido a mais votada do Estado, recebeu apenas 10,95% dos votos válidos.
Em Alagoas – onde Lula obteve 54,73% dos votos – o PSDB elegeu seu único governador em primeiro turno, João Henrique Caldas (o JHC), com 52,2%. O candidato do MDB, Renan Filho, apoiado por Lula, obteve 47,37% dos votos. O PT não elegeu nenhum dos nove candidatos à Câmara de Deputados e não apresentou candidatos ao Senado Federal.
Em Sergipe, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 62,6% dos votos válidos. Fábio Mitidieri (PSD), o candidato apoiado por Lula foi reeleito governador, com 59.3% dos votos. O candidato do PT ao Senado, Rogério Carvalho, foi reeleito, com 22% dos votos. O PT fez um deputado federal, João Daniel, o terceiro mais votado dos oito eleitos.
Na Bahia, onde Lula obteve 66,17% dos votos, o candidato vitorioso à reeleição ao governo do Estado, Jerônimo Rodrigues recebeu 55,8%. Os candidatos vitoriosos na disputa pelo Senado Federal foram do PT: Rui Costa (30,1% dos votos) e Jaques Wagner (27,6%), ambos com menos da metade dos votos atribuídos a Luiz Inácio Lula da Silva. Dos 39 deputados federais eleitos pelo Estado, sete foram do PT.
Pedro Luiz Rodrigues é Jornalista e diplomata