Uma análise dos dados de letalidade policial de 2025 em nove estados mostra que pessoas negras sofrem quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas. A sétima edição do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, estudo feito pela Rede de Observatórios da Segurança aponta aumento de 6,4% na letalidade policial (4.330 mortes somadas nos nove estados monitorados) em relação ao ano anterior. Do total, 86,3% (3.104 pessoas) eram negras. Em sua maioria, são jovens de até 29 anos (64,8%), do sexo masculino e vivem em periferias e favelas. Os números são repassados via Lei de Acesso à Informação pelas secretarias de segurança de nove estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Ainda que escancare a centralidade do racismo estrutural na atuação das forças estatais, conclusão de as todas as sete edições do “Pele Alvo”, o monitoramento esbarra na opacidade dos dados fornecidos pelas secretarias de segurança pública. Estados se habituaram a usar a categoria “não informado” para ocultar o perfil racial de mais da metade das vítimas. Quando o Maranhão passou a informar melhor, o perfil a proporção de negros mortos disparou 22 pontos percentuais no estado. No Ceará, a alta foi de 8 pontos.
Quatro estados registraram o maior número de mortes de suas séries históricas desde 2019: Ceará (200), Maranhão (142), Pará (632) e São Paulo (834). O Piauí é o único estado monitorado a apresentar redução da letalidade policial, com queda de 16,7% em relação ao ano anterior. Em sete anos, o número de vítimas caiu 52,4%, atingindo o menor patamar da série histórica. Mesmo com a redução, a desigualdade racial permanece: as pessoas negras representam 77,1% da população do estado, mas correspondem a 85% das vítimas. Das 43 mortes decorrentes de intervenção policial registradas pelo Amazonas em 2025, exatamente o número do ano anterior, 96% eram negros, a maior proporção entre todos os estados monitorados.
No estado onde 12,5% da população se autodeclara indígena, não há reconhecimento oficial de vítimas indígenas. No Amazonas, houve interiorização da violência policial. As mortes se espalharam de 10 para 16 municípios, e o interior passou a concentrar 63% dos casos, enquanto a capital Manaus respondeu por 37% das vítimas. O município de Coari, sozinho, concentrou 16,3% das mortes do estado, embora reúna apenas 1,6% da população. A Polícia Militar foi responsável por 75% das ocorrências. Estado com o maior número de mortos pela polícia em sete anos, com um total de 8.743, a Bahia tem a letalidade concentrada em algumas regiões. Entre os 417 municípios, 12 acumulam metade das vítimas.
A população negra compõe 79,7% dos habitantes da Bahia, mas representa 93,9% das vítimas da letalidade policial. O estado do Ceará atingiu o maior número de mortes de sua série histórica desde 2019: 200 vítimas em 2025. De 2019 a 2025, houve crescimento de 47% na letalidade. Pessoas negras representaram 87% dos mortos. Em 2025, o Maranhão registrou 142 mortes, maior número de sua série histórica, aumento de 87% em um ano —em 2015 o estado anotou 53 casos. Pessoas negras representam 92% das vítimas identificadas, acima de proporção (79%) na população do estado.
Em 2025, ano em que a capital do Pará sediou a COP30, a letalidade policial cresceu, concentrada na Região Metropolitana de Belém, Ananindeua e Marituba. A Polícia Militar foi responsável por 90% das mortes. A população negra no Maranhão representa 80% do total,, mas soma mais de 93% dos mortos pela polícia. É a segunda maior taxa de letalidade policial contra pessoas negras entre os estados monitorados, sendo 8 por 100 mil habitantes.
As mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 31% em relação a 2025. Em sete anos, houve crescimento de 20% no período. Pessoas negras (65,3% da população) foram quase todos os mortos pela polícia: 94%. Em Pernambuco, negros correm 11 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que outros grupos. Quase 72% das vítimas tinham até 29 anos. Tendo a Operação Contenção, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão em outubro de 2025 como símbolo, o Rio de Janeiro contabilizou 800 mortes provocadas por agentes públicos de segurança, incluindo duas vítimas com idade entre 0 e 11 anos. É um aumento de 14% em relação ao ano anterior e acumulando 8.119 vítimas em sete anos de monitoramento. As mortes ocorreram sobretudo na capital (56%).
No Rio, pessoas negras são 58% da população, mas correspondem a 90% dos mortos pela polícia. A taxa de letalidade foi de 6,3 mortes por 100 mil habitantes negros, contra 1,1 entre brancos, o que representa risco seis vezes maior de uma pessoa negra ser morta. Ao passo que ferramentas de monitoramento, como o Smart Sampa, são utilizadas para reforçar indicadores de produtividade e prisões, as transmissões de câmeras corporais do programa Olho Vivo são frequentemente interrompidas em momentos decisivos, contrariando determinações do Supremo Tribunal Federal (STF). Adoção das câmeras demonstrou ser capaz de reduzir a letalidade policial, já que as mortes caíram de 814, em 2020, para 419, em 2022, mas voltaram a crescer, até atingir o recorde atual de 834 mortes registradas em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior.
Foram 4.774 mortes em sete anos. O aumento ocorreu em contexto de queda de crimes relevantes, como furtos, roubos e latrocínios, refletindo escolhas na condução da política de segurança pública. A capital registrou 31% das ocorrências. Pessoas negras representam 41% da população paulista, mas correspondem a 65% das vítimas fatais da ação policial
Fonte: UOL NOTÍCIAS