Tenho alergia por jogo de azar. Talvez tenha sido influenciado por um caso que ouvi de minha avó, na infância, sobre um parente, gerente de uma das lojas das Casas Pernambucanas. Muito sério e honrado, contraiu o vício do jogo e, depois de perder tudo em apostas, matou-se para não ver sua reputação destruída.
Minha aversão por jogo de azar é total. Nem bilhete de loteria oficial me seduz. Se Deus fez tanto por mim, eu não vou pedir a Ele que me faça ganhar dinheiro sem trabalhar, acertando em loteria ou qualquer outro jogo. Nunca entrei num cassino nem ao menos participo da diversão de pife-pafe ou pôquer. Nem por isso atiro pedra em quem o faz para divertir-se sem dinheiro.
Com esse espírito fui alimentando uma revolta com o que está acontecendo com o Brasil, transformado num grande cassino dominado pelo jogo. Isso causa imenso sofrimento à população, vítima de exploradores, a exemplo das chamadas “bets”, cujas sedes estão no exterior. A verdade é que o Brasil está drenando o suor do trabalho e a poupança do seu povo, gerando miséria e destruindo famílias para o benefício de espertalhões estrangeiros. Eles acumulam grandes fortunas lá fora, além de explorarem muitos outros países onde se infiltraram. E ninguém sabe ao certo como, e com quais métodos, aqui se instalaram. A CPI do Senado apurou que o setor de apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio brasileiro num período de dois anos, enquanto esquemas criminosos, liderados por influenciadores também causaram grandes prejuízos, segundo publicações da Folha de São Paulo e do jornal O Globo.
Recentemente, apareceu o tal do “tigrinho”, jogo online que se transformou numa praga nacional. Milhões de pessoas já estão totalmente viciadas, arrastadas para essa ratoeira tecnicamente armada. No princípio, com o claro objetivo de enganar, as vítimas são atraídas por ganhos fáceis que logo são perdidos, já que os algoritmos foram feitos para extorquir e sugar, levando os jogadores à miséria, devorados pelo tal tigrinho.
Bastava a alegria do futebol, o mais democrático dos esportes. Nos estádios, onde todos são iguais, o país não tem preconceito de raça, religião etc. O que divide é apenas a paixão pelo seu time, manifestada pelos hinos de cada um, pela camisa e pelo grito de guerra. Muitas vezes há excessos, o que é condenável, porque o futebol é amor e não violência: amor gratuito, paixão hereditária, que se transmite como um bem de família.
O Flamengo é intocável na minha, e ser torcedor dele é uma de nossas características, embora genros e noras tenham trazido outras bandeiras e times, que aumentaram a disputa saudável, o que anima a torcida durante os jogos.
Com grande satisfação, vejo que não estou sozinho entre os que se posicionam contra o tal do “tigrinho” e contra essa jogatina que tomou conta do nosso país, trazendo graves reflexos para a economia.
Quero louvar o Block contra a jogatina, a começar pelo “tigrinho”. Block pode significar também bloco, numa tradução bem brasileira e popular. Mas a sua verdadeira ideia é bloquear, impedir, barrar — e eu acrescento uma pessoal, extinguir.
Assim venho me colocar no Bloco de Chico Buarque, do meu colega da Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil, de Caetano Veloso, Luisa Arraes, Djavan, Marieta Severo, Paulinho da Viola, Camila Pitanga, Alcione e de todos os artistas e cidadãos comuns como eu, poeta bissexto, e de padres e frades que abominam os jogos de azar, porta de crimes e pecados.
Faço aqui o meu apelo para conscientizar o povo brasileiro contra essa epidemia da jogatina e das “bets” predatórias. A Confederação Nacional do Comércio mostra que 1,8 milhão de brasileiros se endividaram por causa das apostas online em 2024 — embora ainda não tenhamos dados consolidados de 2025 —; e o Levantamento Nacional do Álcool e das Drogas, que 1,4 milhão de brasileiros apresentam transtornos associados às apostas. Os brasileiros, segundo o Banco Central, estão gastando entre 20 e 30 bilhões de reais por mês em plataformas online.
Bendito o jogo de bola, esportivo, de graça, no campo, nada online. Que nos traga a extinção do “tigrinho” e de todas as apostas. E a vitória no campo.
*José Sarney é escritor, jornalista e ex-Presidente da República do Brasil
