Jéssica Oliveira |
Com 15 anos de experiência na cobertura de política, economia e justiça, metade deles apenas no jornal O Estado de S. Paulo e com foco no judiciário, o repórter Felipe Recondo conhece bem os bastidores e as dificuldades de cobrir esse poder. Foi sobre isso que ele falou no 10º Congresso de da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) na última quinta-feira (2/07), em São Paulo (SP).
Jornalista participou do Congresso da Abraji na mesa “Pautas proibidas do Judiciário”
Na mesa “Pautas proibidas do Judiciário”, o repórter relatou alguns problemas enfrentados por jornalistas que tentam descobrir ou publicar determinadas informações do setor. Ele contou que certa vez tentou pela Lei de Acesso à Informação (LAI) obter os salários dos procuradores do Rio de Janeiro do período de um ano. A resposta pedia que ele descobrisse os números de matrículas e nomes completos de cada um, para só então refazer o pedido – um por um, mês por mês.
Além da ainda falha execução da LAI, o jornalista explicou que a lista de barreiras para quem cobre o Judiciário é muito maior: inclui a falta de transparência do setor, o medo de receber processos ou perseguição e possíveis interesses dos veículos no qual o repórter trabalha. “É angustiante. Mas não tem muito o que fazer, a não ser continuar fazendo matéria, cobrindo, reclamando”, disse.
À IMPRENSA, ele acrescentou que a cobertura do judiciário ainda é pouco explorada no Brasil por causa de dificuldades técnicas de entender e se aprofundar no setor, o fato de o direito não comportar maniqueísmo e a falta de braço nas redações, que estão cada vez mais enxutas.
“Ninguém vai esvaziar a cobertura de Congresso Nacional ou de Ministério da Fazenda nem deslocar mais força de trabalho para cobrir outros tribunais. Há jornais que têm um repórter para cobrir todo o Judiciário de Brasília, que inclui Supremo Tribunal Federal (STF), Supremo Tribunal de Justiça (SJT), Conselho Nacional e Justiça (CNJ), Procuradoria da República no DF, Superior Tribunal Militar (STM)… e às vezes até o Tribunal de Contas da União (TCU), que não é vinculado. É uma carga de trabalho muito grande. E ninguém sai da faculdade querendo cobrir Judiciário.”
Segundo Recondo, esse conjunto de fatores influencia diretamente na cobertura, tanto na quantidade quanto na qualidade. “A imprensa é muito mais crítica, ácida e mordaz quando o problema é no legislativo e no executivo. No judiciário, a cobertura me parece menos focada e acaba sendo mais prejudicada”, disse.
Reparos na Justiça
Acostumado a cobrir o Judiciário, há alguns meses Recondo vive um novo vínculo com a esfera. Em março de 2013, ele foi ofendido pelo ministro aposentado Joaquim Barbosa. À época o então presidente do STF o mandou “chafurdar no lixo” e o chamou de “palhaço”. O jornalista continuou seu trabalho até deixar o Estadão em julho de 2014 e, dois meses depois, ajuizou na 15ª Vara Cível de Brasília uma ação de compensação por danos morais.
A decisão de mover o processo se deu por dois motivos. Primeiro, para deixar claro que não concordava com o que o ministro havia dito e, segundo, por entender que um presidente de tribunal ou qualquer outra autoridade não pode atacar um jornalista “como quiser e pensar que tudo ok”.
“Minha cobertura sempre foi mantida e crítica, como deve ser. A única coisa que temos na nossa profissão é nosso nome e nossa imparcialidade. Se isso é contestado, você perdeu suas duas ferramentas de trabalho”, explicou.
Jota: ano 1
Além do Estadão, Recondo trabalhou no jornal Folha de S.Paulo, no Blog do Noblat, na IstoÉ Dinheiro, e atualmente está no Jota, site que cobre fatos ligados ao judiciário.
Criado por ele e o também jornalista Felipe Seligman, o portal completa um ano este mês e tem motivos para comemorar, como a audiência e o espaço encontrado. Parte do bom resultado é atribuído ao interesse crescente da sociedade em entender a atuação do judiciário.
“Se há talvez centenas de jornais cobrindo o Congresso Nacional, por exemplo, por que não pode haver centenas de sites cobrindo o Judiciário? É um espaço que a gente tem que ocupar e um público grande que precisa de informação”, finalizou.
