Estatísticas oficiais afirmam que mais de 1,6 milhões de brasileiros, já contraíram o coronavírus, e que mais de 64 mil morreram em decorrência de covid-19. Três levantamentos divulgados diariamente no Brasil têm tentado dar a fotografia da pior pandemia do século 21. O primeiro deles é o portal Painel Coronavírus, do governo federal. Os outros dois são iniciativas das secretarias estaduais de Saúde e de um consórcio de órgãos de imprensa — ambas lançadas em meados de junho, quando o governo federal interrompeu a divulgação de dados por alguns dias, provocando dúvidas de diversos especialistas sobre a veracidade dos números que vinham do Ministério da Saúde.
Um mês após a polêmica, os três portais têm apresentado estatísticas razoavelmente parecidas, com apenas pequenas discrepâncias. Mas, mesmo assim, ainda existem muitas dúvidas sobre a confiabilidade desses números — devido a uma série de deficiências na forma como os casos e as mortes são contabilizados.
Essas imperfeições elevam consideravelmente o risco de os números oficiais sobre infectados e mortos por covid-19, tanto no Brasil como no resto do mundo, estarem subestimados. Em outras palavras, podem estar pintando um quadro distorcido da realidade.
Um estudo do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, estima que o Brasil poderia estar próximo de atingir a marca de 9 milhões de pessoas com covid-19 — sugerindo que pode haver uma margem de erro de até 500% nas estatísticas oficiais.
Os pesquisadores partem da noção de que não há testes suficientes feitos no Brasil para se determinar o número de infectados com o Sars-Cov-2, o vírus causador da covid-19.
Assim, eles usam dados da Coreia do Sul — país com um dos melhores sistemas de exames de covid-19 do mundo — para calcular a taxa de letalidade da doença, que é a quantidade de pessoas que morrem em proporção à quantidade que fica doente.
Assumindo que essa taxa de letalidade da doença seja fixa para todo o mundo — ou seja, que a covid-19 mata a mesma proporção de pessoas em todos os países —, eles calcularam o total de pessoas contaminadas com covid-19 no Brasil usando essa taxa fixa e o número de óbitos oficiais no país, que seria mais confiável do que apenas o registro de casos da doença.
Alguns ajustes pontuais foram feitos, considerando diferenças nas pirâmides etárias dos dois países e tempo médio entre internação e óbito. Foi usando essa “engenharia reversa” que eles concluíram que o Brasil pode estar com até seis vezes mais casos do que mostram as estatísticas oficiais.
Demógrafos e cientistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem não acreditar que exista um esforço intencional do país de subnotificar os casos, mas que diversos problemas do país — alguns deles comuns em diversas outras nações que enfrentam a pandemia — dificultam a compreensão da dimensão real da crise do coronavírus.
Mas afinal, quais são esses problemas? Por que é tão difícil estabelecer números precisos sobre casos e mortes por covid-19 no país?
Digitação e transmissão de dados
Os sistemas para registrar mortes de covid-19 foram montados especialmente para a pandemia, sem haver uma padronização entre prefeituras e Estados de como coletar os dados. Antes da covid-19, já havia algumas ferramentas para ajudar o Brasil a entender o quão grave é o quadro de doenças respiratórias no país, como o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde, e o InfoGripe, da Fiocruz. Mas esses sistemas trabalham de forma agregada com os dados, sem conseguir discriminar com precisão quais casos estão ligados a covid-19.
Os números da covid-19 que estão sendo noticiados diariamente nos portais oficiais são compilados através de um “telefone sem fio”. Diariamente as prefeituras entram em contato com hospitais, postos de saúde e clínicas para perguntar sobre o número de casos e mortos em cada lugar. Esses dados são compilados e repassados aos governos estaduais, que agregam os números de todos os municípios e os enviam ao ministério da Saúde.
Já houve episódios em que o governo federal precisou corrigir dados devido a erros de digitação. E não há nenhuma garantia de que os números oficiais divulgados atualmente não tenham falhas de digitação que ainda não foram detectadas.
Também existe um atraso nesse telefone sem fio. Um pesquisador disse à BBC News Brasil que os números nacionais que estamos vendo em um determinado dia provavelmente são compilações de dias anteriores que só chegaram à ponta de cima do sistema — o Ministério da Saúde — com alguns dias de atraso.
BBC NEWS