Campanha vira ringue: Radicalização derrotou as propostas

                                                                                                                                                      *Ney Lopes

                 A eleição presidencial neste segundo turno está, segundo as pesquisas, rigorosamente empatada. A euforia de Lula do “já ganhou” no primeiro turno resultou em derrota. Agora, cabe a Flávio Bolsonaro não agir da mesma forma. Nenhum dos dois candidatos usou uma “bala de prata” com chances de alterar o panorama do eleitorado. Serviu para manter na reta final a ignominiosa radicalização política, que toma o lugar das propostas. Lula enfrentou dificuldades, porém o seu melhor momento foi o desafio para que os candidatos abrissem os sigilos bancários e telefônicos, inclusive dos familiares. Flávio desconversou.
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, prevê que apenas 7% de eleitores indecisos decidirão o vencedor. O debate não atingiu essa parcela do eleitorado, pelo clima de confronto. Deixou interrogações incômodas para o eleitor independente.
Ministério da Prosperidade, um ponto delicado da discussão econômica girou em torno da proposta apresentada por Flávio de criação do chamado Ministério da Prosperidade, destinado a reunir programas sociais. A iniciativa gerou questionamentos inevitáveis, porque a visão neoliberal do bolsonarismo sempre criticou o crescimento dos gastos públicos, o inchaço da máquina estatal e o desequilíbrio crônico das contas governamentais.
O nome é sedutor. O problema é que, até aqui, há mais marketing político, do que como implantá-lo. O projeto pode acabar funcionando como uma espécie de “Bolsa Família da classe média”. Também permaneceu no ar uma dúvida relevante: qual seria exatamente o papel da CEF nesse novo arranjo? Será privatizada?
Regra de transição do bolsa família
Nesta segunda-feira, 19, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, afirmou à CBN Bahia, que um eventual governo Flávio Bolsonaro criaria uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família, que ingressassem no mercado formal, ou abrissem um negócio próprio. Segundo ela, o beneficiário teria retorno automático ao programa caso a iniciativa fracassasse. O candidato não comentou o tema, aliás, totalmente inoportuno.
Aguardar próximo debate
Agora, só resta aguardar o debate da Globo, na sexta-feira, 23. Será a última vitrine. A disputa continuará empatada, enquanto os candidatos insistirem em falar para suas torcidas organizadas. A eleição só encontrará um rumo mais claro, quando algum candidato tiver coragem de abandonar o espetáculo do confronto, abrir a porta da casa do eleitor e sentar-se, de mangas arregaçadas, à mesa da cozinha brasileira. É ali, entre o prato de comida simples, o barulho dos talheres, os filhos por perto, que o Brasil real acontece. Quem continuar falando apenas para derrotar o adversário corre o risco de descobrir, tarde demais, que deixou de conversar com o eleitor.

*Ney Lopes é escritor e jornalista

 

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