Senado: sucessão já movimenta alianças e reposiciona forças políticas

                    *Danilo Affonso Neiva

A votação de 38 a 36 pela retirada da redução da maioridade penal da PEC da Segurança trouxe um indicativo importante sobre a correlação de forças no Senado. Embora não represente uma prévia da eleição da Mesa Diretora, marcada para 1º de fevereiro de 2027, o resultado permite observar como os principais grupos políticos estão organizando suas bases e buscando ampliar seus espaços.

Alcolumbre e Marinho: duas estratégias de articulação

Davi Alcolumbre (União/AP) demonstrou que mantém capacidade de reunir governo, esquerda e setores do centro em votações de interesse comum. Rogério Marinho (PL/RN), por sua vez, evidencia a existência de um campo de direita e centro-direita com força parlamentar para disputar o comando da Casa. Mas Alcolumbre também parece disposto a  avançar sobre esse segundo campo. Foi revelado que o presidente do Senado autorizou excepcionalmente a participação remota de Flávio Bolsonaro (PL/RJ) na votação da PEC da Segurança e sinalizou a interlocutores bolsonaristas que não pretende dar andamento a pedidos de cassação do mandato do senador. Os movimentos são interpretados como uma tentativa de aproximação com o PL, justamente quando Alcolumbre busca apoio para sua recondução à Presidência do Senado. É importante observar, entretanto, que essa sinalização não significa um compromisso formal da bancada bolsonarista com sua candidatura.

O centro continua sendo uma peça fundamental

A disputa não será definida exclusivamente pela polarização entre PT e PL. PP, União Brasil, MDB, PSD e Republicanos terão papel relevante na composição dos apoios, assim como senadores que não necessariamente seguem as orientações de suas respectivas bancadas. Nesse contexto, a eleição da Presidência envolve mais do que acordos partidários.

A diferença entre maioria circunstancial e maioria política

O placar de 38 a 36 demonstra que, em determinadas matérias, a direita consegue atrair parlamentares de partidos que também mantêm relações institucionais com Alcolumbre. O movimento inverso também está no horizonte: o atual presidente poderá buscar apoio entre senadores ideologicamente mais próximos de Marinho, mas que enxerguem vantagens políticas e institucionais em outra composição. A aproximação com Flávio Bolsonaro ilustra essa estratégia. Mais do que um gesto isolado, a movimentação indica que Alcolumbre reconhece a importância de dialogar com o PL e seus aliados, mesmo diante das divergências existentes.

O que observar até fevereiro de 2027

O principal desafio dos candidatos será transformar apoios pontuais em compromissos efetivos. A eleição exige pelo menos 41 votos, e a votação secreta acrescenta uma variável importante às negociações. Portanto, não basta contabilizar manifestações públicas de apoio ou resultados de votações temáticas. Será necessário identificar quem efetivamente estará disposto a sustentar cada candidatura na escolha da nova Mesa Diretora.

*Danilo Affonso Neiva é cientista político e especialista em Relações Governamentais

 

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