Morreu nesta terça-feira (07) o autor de grandes sucessos das telenovelas brasileiras, Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos. O dramaturgo estava internado no Hcor, em São Paulo. De acordo com o boletim médico, ele tinha um diagnóstico de insuficiência renal crônica (IRC) há três anos e apresentava um histórico de internações recorrentes devido a infecções frequentes do trato urinário. Em janeiro, o autor já havia ficado quase vinte dias internado no mesmo hospital para tratar um quadro de infecção urinária.
Nascido em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior paulista, Benedito, filho mais velho de cinco irmãos, cresceu entre cafezais e comunidades formadas por descendentes de italianos e japoneses na cidade vizinha de Vera Cruz. A infância foi interrompida cedo pela morte precoce do pai, o jornalista Otávio Barbosa, fundador o jornal A Voz de Vera Cruz, aos 29 anos, quando o futuro dramaturgo tinha apenas 11. A necessidade de trabalhar ainda menino, já que a mãe, Aurora Medeiros Barbosa, não poderia sustentar a família sozinha, primeiro no interior e depois na capital paulista, moldou uma visão de mundo que mais tarde seria transportada para a ficção. Seu primeiro trabalho acabou sendo como auxiliar de guarda-livros em uma firma. Antes de viver da escrita, foi auxiliar de escritório, vendedor, faxineiro, bancário, revisor e repórter esportivo.
Poucos autores ajudaram a moldar a identidade da telenovela brasileira como Benedito Ruy Barbosa. Em uma televisão historicamente marcada por tramas urbanas, ele fez do campo, das plantações, dos rios, das disputas por terra e das famílias de imigrantes o centro de histórias que atravessaram gerações. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, consolidou um estilo próprio: novelas em formato de saga, protagonizadas por personagens de forte senso moral, romances quase impossíveis e um olhar atento para a formação cultural do país.
A literatura abriu as portas para a dramaturgia. Inspirado pela temporada que passou na zona rural do Paraná, escreveu o romance Fogo Frio, transformado em peça teatral sob direção de Augusto Boal em 1959 e premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O reconhecimento o levou ao mercado publicitário, onde começou a escrever radionovelas e, posteriormente, teledramaturgia. Sua estreia como novelista ocorreu na década de 1960, mas foi em 1971, com Meu Pedacinho de Chão, que encontrou a marca que definiria sua carreira.
A novela representou uma ruptura. Em plena ditadura militar, Benedito apostou em um universo rural brasileiro tratado com realismo, abordando técnicas agrícolas, educação e a vida no campo. Mesmo submetida à censura, a obra mostrou que era possível fazer sucesso contando histórias longe dos grandes centros urbanos. A partir dali, o autor consolidou uma dramaturgia baseada na observação direta da realidade. Antes de iniciar um projeto, costumava visitar as regiões que serviriam de cenário para suas histórias, numa busca por sotaques, costumes e personagens reais que alimentariam sua ficção.
Na Globo, para onde foi contratado em 1976, escreveu sucessos como Cabocla, Paraíso, Sinhá Moça e Vida Nova. Mas seria nos anos 1990 que seu nome alcançaria um novo patamar. Depois de escrever Pantanal para a extinta TV Manchete, novela que revolucionou a linguagem da televisão ao privilegiar paisagens naturais e gravações externas, retornou à Globo para criar Renascer, marco definitivo da dramaturgia rural brasileira. Em seguida vieram O Rei do Gado, Terra Nostra, Esperança e Velho Chico, produções que combinaram conflitos familiares, disputas econômicas, imigração, religiosidade popular e grandes histórias de amor.
Jornal da Cidade Online