Inteligência Artificial ameaça a eleição de 2026

                              *Ney Lopes

Admitindo-se cenário eleitoral, imaginemos um vídeo falso divulgado poucas horas antes da votação. Nele, um candidato aparece praticando um crime, insultando eleitores ou confessando corrupção. Mesmo desmentido, a fraude já teria produzido estragos irreversíveis. Nas eleições de 2026, o processo eleitoral brasileiro exigirá extrema fiscalização dos conteúdos distribuídos por inteligência artificial, que possam disseminar situações inexistentes. O risco não estará apenas em discursos e comícios tradicionais, mas em mensagens, que podem criar cenários criminosos

Percebe-se, que a simulação da realidade pela tecnologia deixa de apoiar-se em fatos concretos e causa mutilação instantânea a vontade soberana do eleitor O debate democrático passa a ser revestido de irrealismo, abrigando situações fictícias e inexistentes para incriminar atores submetidos ao crivo popular.

Corrida desigual

Em diferentes partes do mundo, governos reagem ao avanço da inteligência artificial nas disputas políticas. A União Europeia adota regras rígidas de classificação de riscos. França e Alemanha reforçam a fiscalização de campanhas digitais e impõem maior responsabilidade às plataformas na remoção de desinformação. Nos Estados Unidos, a resposta é mais fragmentada, com iniciativas estaduais e debates sobre a proibição de ‘deepfakes’, simulações criadas para imitar pessoas reais, alterando falas, rostos e ações a fim de gerar fatos com aparência de verdade.

Ameaças da Inteligência Artificial

No Brasil, o ministro Kássio Nunes Marques apontou a inteligência artificial como um dos principais desafios para as eleições gerais deste ano. Para ele, a ameaça está na “mentira tecnicamente otimizada”, distribuída no momento certo, para o público certo, com aparência de autenticidade.

A capacidade da Justiça Eleitoral agir com eficácia vai depender da disponibilidade de quadros técnicos qualificados. Não se pode negar que houve avanço do TSE na regulamentação destinada a evitar abusos tecnológicos e o chamado caos informacional. Uma medida oportuna é a proibição da circulação de material sintético nas 72 horas que antecedem a votação e também nas 24 horas posteriores ao pleito.

O objetivo é evitar a circulação de conteúdos fraudulentos em um dos momentos mais sensíveis do ciclo eleitoral. Entretanto, o problema é que esses boatos digitais se propagam em segundos; a correção depende de horas ou dias, dificultando o restabelecimento da realidade. Conclui-se que, sem reação rápida, firme e tecnicamente eficaz, a democracia correrá o risco de tornar-se refém da manipulação algorítmica e da indústria digital da desinformação.

*Ney Lopes – Jornalista, advogado e ex-deputado federal – nl@neylopes.com.br.

 

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