A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB escolheu o tema como objetivo de inserir a campanha nas comemorações do jubileu do Concílio Vaticano II, com base nas reflexões propostas pela Constituição Dogmática Lumen Gentium e pela Constituição Pastoral GaudiumetSpes, que tratam na missão da Igreja no mundo. A CNBB registra que a Campanha da Fraternidade nasceu dos esforços de renovação propostos pelo Vaticano II, lembrando que as primeiras campanhas propuseram temáticas mais eclesiais e depois houve uma série voltadas para temáticas sociais, com a compreensão da Igreja com servidora da sociedade e da humanidade para a promoção da Justiça do Reino de Deus. Outra observação importante feita pela CNBB é que a campanha de 2015 é uma oportunidade para englobar as duas dimensões: Qual Igreja e qual Sociedade que queremos? Uma Igrejaa serviço da Sociedade que almejamos, a sociedade desejada pelo próprio Cristo: Justa, Fraterna, Solidária, com Vida Digna em Abundância para todos.
Igreja e Sociedade
“O que mais falta aos homens da Igreja é o Espírito de Cristo, a humanidade, o despojamento de si mesmo, a acolhida desinteressada, a capacidade de ver o melhor do outro. Nós temos medo, queremos manter o que caducou, porque disso temos o hábito, queremos ter razão contra os outros. Dissimulamos, sob o vocabuláriode humildade estereotipada, o espírito do orgulho e de poder. Brincamos de pôr a vida à parte. Da Igreja fizemos uma organização como as outras. Empregamos as nossas forças para organizá-la e agora as empregamos para fazê-la funcionar. E ela caminha mais ou menos, menos do que mais, mais caminha. O problema é que ela caminha como uma máquina, e não como a vida”
O professor e mestre em Teologia Dogmática, Celso Loraschi destaca a afirmação do patriarca ecumênico, Atenágoras, feita há mais de quatro séculos e que possui caráter exortativo para a Igreja na atualidade. Ele diz que a Constituição Pastoral GaudiumetSpes, formulou princípios orientadores para a missão da Igreja num mundo em acelerada transformação. De lá para cá, foram inúmeras as iniciativas, em todos os âmbitos, para organizar uma Igreja mais humana e solidária, respondendo aos clamores da sociedade, especialmente das pessoas abandonadas. Situa que a Igreja precisa avançar sempre mais, rompendo com a tentação de acomodar-se. E para avançar com liberdade evangélica, há necessidade de abandono de tudo que impede de ser verdadeiramente discípula missionária do Senhor, afirma o professor e mestre em Teologia Dogmática.
Igreja em Serviço à Sociedade
Para o Presbítero da Arquidiocese de São Paulo e doutor em Teologia, AntonioManzatto, o Vaticano II compreende a Igreja presente no mundo como servidora dele na proclamação da boa-nova da salvação em Jesus Cristo. O papa Francisco retoma esse ensinamento, lembrando que o mundo todo precisa ser salvo, e por isso a confissão e ação eclesial têm uma dimensão social que lhes é inerente e precisa ser realizada como contribuição dos cristãos na construção de uma sociedade de paz. Ele também destaca que é convicção de todos que Francisco humanizou o papado. Seus gestos, palavras e preocupações mostram claramente o papa como um ser humano e, mais que isso, como alguém preocupado com as pessoas. Sua postura é intencionale nitidamente pastoral, e seu ensinamento precisa sempre ser entendido nessa direção. Trata-se do pastor que se preocupa com o rebanho, daí sua atenção às periferias existenciais, à pratica da misericórdia, a uma Igreja que precisa sempre estar pronta a acolher, perdoar e curar feridas. Uma Igreja que não pode se satisfazer em si mesma, precisa missionariamenteir ao encontro do mundo, das pessoas e da sociedade, para ali anunciar e testemunhar o evangelho de Jesus, que Aparecida chamava o evangelho da dignidade humana, registra o Presbítero da Arquidiocese de São Paulo.
A Paz é Fruto da Justiça
O doutor em teologia AntonioManzatto registra do contexto de Campanha da Fraternidade, importantes aspectos sociais, quando destaca: A paz é fruto da justiça, já lembrava Paulo VI, e por isso ela não pode ser entendida como simples ausência de violência ou imposição de silêncio dos mais fortes sobre os mais fracos. Não é modelo da Pax Romana que deve ser seguido, porque isso significa verdadeira paz. Esta se baseia no respeito à dignidade das pessoas, aos direitos humanos e aos direitos dos povos. Não devemos escamotear os conflitos, mas enfrenta-los com serenidade para que eles possam ser superados.
Por isso Francisco lembra que o estabelecimento da paz não se faz simplesmente na interioridade das pessoas ou no nível interpessoal. Deve-se atingir um nível mais amplo e profundo, aquele da formação da sociedade e da convivência entre os povos. Uma sociedade ou povo não se constitui por simples aglomeração de pessoas, mas por relações estabelecidasentre elas e governadas por princípios que valorizam o bem comum, segundo os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja.
A verdade é que ao englobar as dimensões eclesial e social para a Campanha da Fraternidade de 2015, a Igreja Católica, chama o Povo de Deus à missão profética de anunciar e denunciar. Não podemos ser meros expectadores da violência que destrói vidas, dignidades humanas, direitos. Ficarmos calados diante da corrupção exacerbada para a garantia de domínio politico e para enriquecimento de políticos é contribuir para o aumento das desigualdades sociais, da fome e da miséria. Durante os últimos dois anos, segmentos da Igreja Católica do Maranhão foram totalmente omissos e até coniventes para os 88 assassinatos com duas barbáries, inclusive com decapitações de seres humanos. Os religiosos da Pastoral Carcerária, que deveriam ser a presença da Igreja dentro dos cárceres, em troca de empregos no sistema penitenciário venderam as suas consciências, se é que tinham. Entendo que diante desse importante processo de retomada dos documentos do Vaticano II, o Povo de Deus deve seguir o caminho da construção coletiva de direitos e da dignidade de todos.
