O papa Francisco continua peregrinando com muita fé e serenidade
Como prossegue o caminho de Francisco? A recente exortação pós-sinodal traz o ar fresco da realidade na concepção católica da família, expressa uma linguagem e uma abordagem pastoral novas, convidando a olhar para as pessoas e para as situações na sua concretude, reitera a visão de Igreja de Francisco como uma comunidade que consola, acompanha e acolhe os homens e as mulheres do século XXI.
A reportagem é de MarcoPoliti, publicada no jornal Il FattoQuotidiano
Mas a Amorislaetitiaé um ato papal de governo e de direcionamento, que também deve ser medido pelo modo em que reflete os equilíbrios internos de um órgão complexo como a Igreja. Os sinais das freadas impostas são vistosos.
Só o fato de que em nenhum lugar se cite o termo “comunhão aos divorciados recasados” é eloquente. Mais indicativo ainda é que toda a problemática é confiada ao exame caso a caso, e a alusão à Eucaristia se encontra apenas em uma nota de rodapé, a 351, onde se fala genericamente de “sacramentos”.
Significa que o Papa Bergoglio tinha as mãos atadas e não podia ir excessivamente mais longe do que o que foi decidido pelos bispos do mundo no relatório final do Sínodo de 2015. Sínodos, concílios e conclaves são os únicos momentos na Igreja Católica em que se manifesta um aspecto participativo baseado no princípio democrático: um homem, um voto.
O resultado desses eventos diz muito sobre a situação interna na Igreja. A longa marcha dos dois Sínodos revela que dois pontos cruciais do programa dos reformadores foram silenciosamente rejeitados pela maioria do episcopado mundial – quer por conservadorismo, quer por apego à tradição ou por medo de se mover em mar aberto – a tal ponto de fazê-los desaparecer completamente da pauta.
É preciso voltar para o relatório intermediário do Sínodo de outubro de 2014 para reencontrá-los expressados claramente.
- A proposta de um explícito “caminho penitencial” válido para os divorciados em segunda união, no término do qual os cônjuges de um segundo casamento, satisfeitas certas condições, poderiam ter acesso à comunhão.
- O reconhecimento também do caráter positivo da vida de casal homossexual. Vale a pena reler vale o que foi escrito, então, no relatório intermediário: “Sem negar as problemáticas morais conectadas com as uniões homossexuais, reconhece-se que há casos em que o apoio mútuo até o sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros”.
A primeira proposta já podia ser percebida no relatório do cardeal Kasper (por precisa solicitação de Francisco) no consistório dos cardeais de fevereiro de 2014. Ela foi decididamente escanteada e substituída pelo exame caso a caso, confiado ao confessor.
Uma flexibilidade ditada pela necessidade, que evidenciaria rapidamente na Igreja um panorama desigual. Clemência em alguns territórios, rigorismo em outros. Como disse o cardeal Schönborn, “um confessor pode estar mais disposto; outro, mais severo… é o discernimento”;
A segunda proposta tinha sido redigida pelo secretário especial do Sínodo, o arcebispo Bruno Forte (escolhido pessoalmente pelo papa), que, no texto, tinha transferido a definição de Francisco, revelada publicamente pela sua acolhida no Vaticano de um transexual com a sua namorada e pelo seu cordial encontro nos EUA com um ex-aluno gay seu junto com o seu companheiro.
A abertura às convivências homossexuais foi totalmente cassada. Todos os trechos da Amorislaetitiasobre o respeito às pessoas homossexuais já faziam parte de documentos de Ratzinger, quando ele ainda era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Sobre esse terreno, a Amorislaetitia(por mais que seja conhecida a abordagem pessoal de Francisco) não dá nenhum passo à frente.
A verdade foi expressada por ocasião do terceiro aniversário da eleição papal por Andrea Riccardi, líder da Comunidade de Santo Egídio: nos últimos 100 anos, nenhum papa “jamais teve tantas resistências quanto Francisco… (internamente) às estruturas eclesiásticas, aos episcopados e os clero”. Palavras como pedras, que um historiador da Igreja não pronuncia com superficialidade.
A estratégia que a frente dos opositores está adotando é a de uma sistemática “contenção” do impulso reformista de Bergoglio. Viu-se isso nos Sínodos. Vê-se isso na Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, onde não passa o princípio da denúncia obrigatória à autoridade judiciária por parte do bispo contra os padres pedófilos (se a vítima concordar). Vê-se isso na sabotagem do desejo papal de colocar as mulheres em posições de “autoridade” na Igreja.
A operação de contenção se manifesta no contraponto sistemático – e sem precedentes contra um pontífice por parte do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – implementado pelo cardeal Müller. Francisco fala de uma Igreja hospital de campanha, e o cardeal responde que a Igreja “não é um sanatório, mas a casa de Deus”. Francisco vai viajar para a Suécia em outubro para comemorar os 500 anos da Reforma de Lutero, e Müllerdeclara que “nós, católicos, não temos nada para festejar” em uma data que levou ao “cisma da cristandade ocidental”. A cada passo dado, o cardeal ressalta que Francisco “não é um teólogo profissional” e que deve ser teologicamente ajudado. Em um mundo como o vaticano, são palavras sutis, mas pesadas de deslegitimação.
Nos últimos dias, foi apresentado em Roma um manual sobre os sacramentos do Mons. Nicola Bux. Nunca, nas intervenções dos cardeais Burkee Sarah, foi nomeado o atual pontífice (exceto uma vez, sobre a encíclica Lumenfidei, que, aliás, foi escrita em forma de esboço por Bento XVI). Como se Francisco não existisse.
Ettore GottiTedeschi, elogiando “Bento XVI, o Grande” (ovação do público), afirmou que “a máxima autoridade da Igreja Católica deveria se preocupar com a sobrevivência do catolicismo”. Quase como se Bergoglio perdesse tempo em questões irrelevantes.É um clima péssimo. O Papa Francisco se encontra no olho do furacão.
Fonte – IHUSINOS
