Quem roubou o futuro do País do Futuro?

                                                                                                             * David Gertner

Poucos países foram tão definidos por um tempo verbal quanto o Brasil. Durante décadas, os brasileiros aprenderam a viver emocionalmente no futuro. O país era apresentado como a grande potência adormecida, o gigante prestes a despertar, a nação inevitavelmente destinada à grandeza. Havia sempre a sensação de que algo extraordinário estava prestes a acontecer — no próximo ciclo econômico, na próxima reforma, no próximo governo, na próxima descoberta, na próxima década.

O problema é que o futuro tinha o hábito inconveniente de continuar no futuro.

E talvez exista algo profundamente melancólico nisso.

Gerações inteiras cresceram ouvindo que viveriam no país que finalmente daria certo. Muitas envelheceram esperando.

Porque poucas nações conviveram tão intensamente com a sensação de potencial quanto o Brasil. Um país continental, rico em recursos naturais, diversidade cultural, capacidade agrícola, energia, água e talento humano. Uma sociedade que, apesar de crises recorrentes, preservou vitalidade democrática, criatividade econômica e extraordinária capacidade de adaptação.

Ainda assim, permanece a sensação de um país permanentemente interrompido.

O Brasil às vezes parece uma obra permanentemente cercada de andaimes — sempre prestes a ficar pronta, sempre anunciando a próxima etapa.

Não porque nada tenha avançado. Avançou. Milhões saíram da pobreza nas últimas décadas. Setores inteiros da economia se modernizaram. O país tornou-se referência mundial em áreas como agricultura tropical, sistemas bancários digitais e aviação regional. Expandiu universidades, produziu ciência de qualidade, criou empresas competitivas e fortaleceu instituições em momentos importantes de sua história recente.

Mas o avanço raramente pareceu contínuo.

O Brasil frequentemente cresce em espasmos.

Constrói, desorganiza, recomeça.
Avança, tropeça, promete novamente.
E vive preso à estranha sensação de estar sempre “quase chegando”.

Talvez porque nenhum país construa um grande futuro apenas com potencial.

Potencial é uma palavra perigosa. Ela conforta. Permite adiar cobranças reais porque sempre sugere que a grandeza continua disponível logo adiante.

Mas futuro exige mais do que promessa.

Exige continuidade. Exige investimento persistente em educação, infraestrutura, produtividade e capacidade de longo prazo. Exige segurança jurídica, responsabilidade fiscal, estabilidade institucional e a capacidade de pensar além do próximo ciclo eleitoral.

Sobretudo, exige confiança.

E confiança talvez seja uma das coisas mais difíceis de construir em sociedades acostumadas à improvisação.

O problema não é apenas corrupção — embora ela tenha corroído recursos, credibilidade e oportunidades durante décadas. O problema não é apenas impunidade — embora ela alimente a sensação corrosiva de que regras existem de maneira desigual. O problema também está na dificuldade histórica de transformar projetos de país em políticas de Estado capazes de sobreviver a governos, crises e polarizações.

Países que constroem futuros duradouros geralmente acumulam décadas de continuidade institucional, investimento persistente e pactos mínimos sobre prioridades nacionais.

O Brasil frequentemente troca continuidade por recomeço.

E talvez seja exatamente aí que o futuro começa a se perder.

Não de forma dramática ou instantânea.

Mas lentamente.

Na escola pública abandonada.
Na infraestrutura que nunca chega completamente.
Na burocracia que paralisa.
Na violência que limita vidas.
Na desigualdade que desperdiça talentos.
Na fuga silenciosa de cérebros.
Na incapacidade recorrente de planejar além da urgência imediata.

O futuro de um país raramente desaparece de uma vez.

Ele se desgasta aos poucos.

Mesmo assim, talvez a pergunta mais importante não seja “quem roubou o futuro do País do Futuro?”, mas se o país ainda é capaz de reconstruir uma ideia de futuro que dependa menos de slogans e mais de continuidade.

Porque o verdadeiro desenvolvimento não acontece quando uma nação acredita que está destinada à grandeza.

Acontece quando ela decide, pacientemente, construí-la.

Futuros não acontecem.

São construídos.

*David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta brasileiro radicado nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University,

 

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