Uma tendência inédita em mais de uma década derrubou o brasileiro do cavalo do bem-estar. Pela primeira vez desde 1992, a renda do trabalho dos brasileiros diminuiu e a desigualdade aumentou, de acordo com dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). “É um fato empírico novo que torna real a crônica da crise social anunciada”, explica Marcelo Neri, economista da Fundação Getúlio Vargas, que analisou, com surpresa, o material. A análise cobra ainda mais peso porque Neri foi um dos principais estudiosos e entusiastas da queda da desigualdade nos anos Lula-Dilma.
A reportagem é de María Martín e publicada por El País
O que Neri viu nos números do último trimestre de 2015 é que o índice do bem-estar, combinação entre renda e equidade, caiu 5,7% em 12 meses – sendo 3,24% queda da média de renda domiciliar do trabalho e 2,46% aumento da sua desigualdade. A queda é importante por ser uma novidade após anos de crescimento, e se comparada com o primeiro trimestre de 2014, quando o índice geral de bem-estar teve aumento de 6,45%.
“Até agora a gente falava de crise política, de crise econômica, mas agora, e só agora, antevemos uma crise social. O brasileiro se virou bem. Perdeu o emprego com carteira, que era a grande conquista e o símbolo de essa nova classe média, e manteve a renda, mas o sonho está se perdendo em grande escala desde 2014”, explica Neri, que foi ministro do Governo Dilma e presidente do Ipea.
Em novembro do ano passado, Neri surpreendia-se com a capacidade do brasileiro de driblar a crise e o descrevia como um Indiana Jones que, apesar do aumento do desemprego, a inflação e do PIB estagnado, via sua renda crescer, mesmo em empregos informais. A comparação hoje é outra: “Eu via o Brasil na beira do precipício, mas surpreendentemente no topo, apesar das dificuldades. Agora começou a queda”, ilustra Neri.