Às vésperas do lançamento de um novo programa anticrime do governo Lula, chegou ao noticiário pesquisa feita pelo Datafolha por encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Revela que 96% dos brasileiros temem ser vitimas de crime. Já nem precisam sair de casa para experimentar a sensação de insegurança. Basta entrar no celular. No topo da lista dos grandes medos nacionais, o temor de perder dinheiro em golpes digitais alcança 83,2% da população — algo como 140 milhões de pessoas. O assaltante clássico, de arma em punho, continua frequentando o imaginário nacional. Mas divide espaço com um criminoso mais sofisticado — do tipo que captura senhas, invade aplicativos e limpa contas bancárias sem precisar usar capuz ou fugir da polícia.
Noutra evidência de que o ambiente doméstico pode ser mais ameaçador do que a rua, o mesmo país que teme o crime tecnológico convive com o aumento dos crimes contra mulheres. Grande parte acontece entre quatro paredes. No período de janeiro a março, o país registrou 399 casos de feminicídio. Foi o primeiro trimestre mais letal em dez anos. O Datafolha mostra que o medo da agressão de companheiros (42,2%) é quase tão grande quanto o medo de andar pela vizinhança depois de anoitecer (47,6%).
Num cenário em que a bandidagem manda mensagem com links maliciosos, faz PIX e dorme ao lado, o anúncio de mais um programa governamental anticrime já não traz esperança. A menos de cinco meses da eleição, pode produzir raiva. O eleitor pode se dar conta de que o medo é a única coisa que não o abandona. Está sempre presente.
*Josias de Sousa é colunista do UOL
