
*Felipe Vieira
O país quer saber se a regra vale para todos.
O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino publicou um artigo com um título forte: “Como punir a corrupção na Justiça? “No texto, defende penas mais duras para magistrados, procuradores, advogados públicos e privados envolvidos em esquemas de corrupção. Fala em perda rápida de cargo, responsabilização criminal e necessidade de proteger a credibilidade do sistema judicial.
No papel, o discurso é duro.
Na prática, ele surge em um momento delicado para o próprio Judiciário brasileiro. Nos últimos meses, reportagens e denúncias colocaram sob debate público situações envolvendo pessoas próximas a ministros do Supremo. Alexandre de Moraes virou alvo de questionamentos após reportagens sobre contratos milionários envolvendo o escritório de advocacia ligado à sua esposa e instituições financeiras. Dias Toffoli também apareceu no noticiário após revelações sobre relações de pessoas próximas e episódios ligados ao resort de luxo em Mangaratiba. Nenhum dos casos resultou em condenação. Os ministros negam irregularidades ou evitam comentar publicamente detalhes das acusações. E é justamente aí que mora o problema central.
O Brasil vive uma crise de confiança institucional. Quando ministros defendem rigor contra corrupção, a sociedade naturalmente passa a exigir o mesmo padrão dentro do topo do próprio sistema. O discurso perde força quando parece mirar apenas juízes de primeira instância, procuradores ou operadores menores enquanto suspeitas envolvendo figuras poderosas seguem cercadas de silêncio.
A pergunta feita por Dino é correta. Talvez falte apenas complementá-la: Como punir a corrupção na Justiça quando as suspeitas alcançam também os andares mais altos do poder? Sem essa resposta, qualquer discurso moralizador corre o risco de parecer seletivo. E seletividade é uma das formas mais rápidas de destruir a credibilidade de qualquer instituição.
@felipevieirajornalista
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