As Academias de Letras são o sonho dos intelectuais. São poucas cadeiras para muitos imortais. Há sempre dificuldade de acesso por parte dos candidatos e de escolha por parte dos eleitores. Há critérios que prevalecem à revelia dos estatutos. Quanto às virtudes dos candidatos. A rotina é preservada. Peregrinação dos candidatos para pedir votos a eleitores em quem não acreditam. Os ungidos seguem essa rotina por mera formalidade. Alguns candidatos encaram a atenção recebida como esperança de voto. Depois, sentem-se traídos. Esquecem a sacralidade do segredo do voto.
Essas angústias de candidatos e eleitores podem ser resolvida. Basta mudar os critérios. O direito hereditário, por exemplo, seria um deles. Morreu o imortal. Nada mais justo do que transferir sua imortalidade para seus descendentes. Como se trata apenas de uma imortalidade, poderia ser o (a) primogênito(a) ou o(a) caçula. Até eleição dentre os herdeiros. Assim as academias transfeririam para os sucessores o estresse da eleição. Exigir que o (a) herdeiro(a) tenha livro publicado ou outro tipo de obra produzida poderia ser um complicador.
Por falar em obra, essa pode ser outro critério. Não obra publicada. Obra pública.
A Academia Brasileira de Letras tem ex-presidentes da República em seus quadros. Tem ex-presidente do Senado. Esse pode ser um critério de mão dupla. Assim as academias podem ajudar a melhorar o nível intelectual desses distintos cargos de comando nos poderes da República. A ideia deve ser replicada nos estados e municípios.
Presidente da República, do STF e do Congresso serão candidatos naturais às vagas abertas nos seus respectivos mandatos. Em rodízio. Ou por obras realizadas. Decisões proferidas. Leis aprovadas. No caso dos estados, as vagas serão dos governadores, dos presidentes de assembleias e tribunais de Justiça. Será justa a reivindicação de uma vaga para o Procurador Geral da Justiça e outra para o Tribunal de Contas do Estado. Até para a OAB, por analogia com o quinto constitucional, se o MP tiver direito.
Nos municípios a imortalidade intelectual será conferida aos prefeitos e presidentes das câmaras municipais. Haverá questões acidentais. Exemplo. falecimento de imortal durante o exercício de vice. O ingresso desses imortais levará para as academias uma experiência nova. Quebrará tabus. Ampliará o número de cadeiras para acomodar lideranças partidárias. Assim canalizará verbas públicas com mais facilidade, comissões de vários tipos e assessorias especiais. As academias sairão do vermelho e contribuirão para o fim de obras inacabadas e superfaturadas. Esse deve ser um critério. Flexível. Do contrário, inviabilizará os candidatos.
Cessará o assédio aos assentados na imortalidade. E as inconveniências dos candidatos que pedem voto no velório do vacante. Ou nos hospitais, aos imortais em visita ao moribundo de viagem anunciada.
Fonte: Professor José Raimundo dos Santos
